Sunday, April 02, 2006

Tenho estado a pensar numa coisa, disse Isolda com voz doce para João. Em mim, perguntou João com ar sedutor. Ora, riu-se Isolda, em ti penso em toda a hora, respondeu muito depressa aproximando a sua cara da dele. Então o que é? Estamos aqui na Cornucópia, a ver a Gaivota, os dois primeiros actos já terminaram, aguardamos o terceiro e não há tosse. Tosse, perguntou espantado. Sim, eu explico, disse misteriosa. As pessoas que vêm às estreias do teatro do Bairro Alto são tal como na Gulbenkian públicos habituais de há trinta anos, mas estes não tossem qundo fecha o pano e os outros, os da Gulbenkian fazem-no sistematicamente entre os intervalos de dois andamentos.
João ficou a cogitar e respondeu triunfante. Fazem frete. Frete, perguntou Isolda admirada. Sim Iso, os da Gulbenkian são na maioria burgueses de direita que vêm por status, encontrar amigos, picar o ponto se assim se pode dizer, mas o frete para alguns é grande. São diabéticos, sofrem de reumático...oh João que análise, respondeu Isolda Rindo. Aqui, continuou João são os militantes de esquerda, os habitués que gostam mesmo, estão concentrados, não pensam na doença enquanto estão aqui. Olha para os fatos, não vês peles, nem jóias em demasia, mas sim os cachecóis, alguns palestinianos, estás a ver a diferença. Nunca tinha pensado nisso. Comigo vais pensar muita coisa. Isolda sorriu e deu-lhe a mão. Então quer dizer que Marx se fosse vivo vinha à Cornucópia e não à Gulbenkian? Bom, se gostasse muito de música clássica ia mascarado. Ah, ah, de quê? De Kant, respondeu João com grandes gargalhadas.

Saturday, March 18, 2006

Isolda subiu as escadas do CCB devagar, era sábado e chovia torrencialmente. Debaixo do chapéu de chuva ganho com a compra da revista Máxima prepara-se para ver a exposição, de repente vê ao longe Marcelo a sair da porta do edifício. Vem acompanhado, murmura surpreendida, a jovem que caminha junto ao seu cunhado tem a idade da sobrinha. Olá Marcelo por aqui? pergunta-lhe com voz irónica. Marcelo pára surpreendido e balbucia algumas justificações. Sim, viemos para uma reunião extraordinária aqui perto, como terminou muito tarde resolvemos almoçar e a Rita sugeriu que fossemos ver a exposição da Frida. Muito prazer, Isolda Freire, disse estendendo a mão para a jovem acompanhante do cunhado, a exposição é boa? Rita Espadeiro, muito prazer em conhecê-la, o Marcelo já me tinha falado de si, partiu uma perna há pouco tempo, não foi? Não sabia que te preocupavas tanto comigo, disse Isolda sem responder à pergunta de Rita. Bom, atalhou o homem atrapalhado, a exposição é pequena, muito pequena, e é quanto a mim mais uma biografia da Frida Khalo do que uma exposição da obra dela, o filme é bom, tem boa informação, mas está lá um dos meus quadros preferidos, a coluna partida...muito bem disse Isolda, a seguir vou ao Museu do Chiado ver os fauves. Já vimos repetiram os dois ao mesmo tempo, hum, disse a cunhada olhando-o nos olhos, e que tal? Já vi melhor, mas tem com a excepção de Matisse alguns pintores de segunda linha muito interessantes, com influências claro, retorquiu Rita com uma voz bastante excitada. É pena que a Teresa não possa vir, retorquiu Isolda, dirigindo-se a Marcelo. Ela tem estado adoentada, com gripe, é alérgica como tu sabes, respondeu irritado. Sim, sim, bom adeus, prazer em conhecê-la, disse Isolda afastando-se num rompante. Entrou e sentou-se um bocado aguardando que a fila diminuisse, mas porque é que eu fiquei irritada, cogita abstraindo-se de tudo ao seu redor. Quero lá saber que ele ande a dar umas voltas com esta miúda. A minha irmã que se cuide e trate da sua vida.
Rivera e Frida, Frida e Rivera, casados por duas vezes, a fidelidade é uma utopia? Fui criada na ideia de que o amor era para sempre e o casamento idem, idem, aspas, aspas e tanto desgaste sofri com estas premissas absurdas. O importante é a construção de qualquer coisa que se pode chamar a dois, encorpar a tolerância e aceitar o outro como ele é. Que bonito, que utópico, mas se a Frida conseguiu, com outras amizades pelo meio, a monopolização do amor e do outro é um caminho perigoso. Frida, como tu regeitaste a comiseração, como tu enfrentaste a vida com talas de madeira e corpetes de tiras duras. Sinto-me tão só e tão melancólica, sinto-me sempre tão só e melancólica. Tenho de iniciar outra corrida. Olá Iso, estamos a encontrar-nos muitas vezes. Levantou os olhos e o João estava sorridente na sua frente, abraçado a uma menina, esta é a Mariana a minha filha, vamos ver a Frida Khalo, já viste? Isolda esconde o bilhete no bolso e responde eufórica, cheguei mesmo agora, vamos.

Thursday, March 16, 2006

Teresa esperava ansiosa o marido no hall da Gulbenkian. Estava nervosa, o concerto começava às sete e ele chegava atrasado como sempre. Olhou em volta, aquelas pessoas eram as mesmas dos anos sesssenta, só que com mais quarenta anos em cima. Cumprimentam-se com um beijo, só um e vestem da mesma maneira. Fato saia e casaco, blusas de seda, casaco de peles ou estolas ainda empoeiradas pela naftalina. As mulheres são todas louras aos sessenta anos, particularmente as desta classe social, concluiu Teresa. Pensativa, sussurrou ao seu ouvido Marcelo. Marcelo, disse com voz zangada, chegas sempre em cima da hora e eu detesto esperar. Não me aborreças querida logo hoje que foi um dia em cheio. Está bem, respondeu Teresa condescendente, vamos entrar. A sala compunha-se, as peles brilhavam na plateia. Marcelo, gostavas que eu fosse loura? perguntou com voz baixinha. Hum, hum até gostava, respondeu o marido distraído olhando para uma jovem de calças justas acompanhante da avó que de bengala em riste apontava os lugares, é ali Mafalda, o seu avô é um teimoso e agora não sei onde é que ele está. Esta gente cheira a passado. Já viste a média de idades que está nesta sala? O marido não deu continuidade à conversa porque estava mais interessado a conferir as mensagens do telemóvel. O que ele me irrita quando não dá resposta, pensou Teresa, desliga o telefone Marcelo o concerto vai começar, disse-lhe com voz azeda.
As luzes apagaram-se e o concertista de casaca polida entrou. O concerto começa com Bach, nos intervalos entre partituras uma outra música ecoa de forma intensa na sala, a tosse. Muito tossem estes velhos, disse Teresa para o marido com voz baixa, por isso é que são velhos, respondeu-lhe com ar irónico a cara metade. Schhhhh, schhh, ouvia-se na plateia cada vez que a tosse irrompia. Os velhos sossegaram e outros barulhos começavam lentos, muito lentos, eram os dos rebuçados a serem tirados do papel. Teresa encostou-se e concentrou-se na música fechando os olhos, agora era Mozart, como ela gostava de Mozart. A Isolda podia vir com eles, mas não, ela nunca queria sair com eles. De repente abriu os olhos sobressaltada, um peso caia-lhe para cima do ombro esquerdo, era a cabeça de Marcelo a dormir. Pisou-lhe o pé danada e ele disse um ai dorido e logo se ouviram schhs e mais schss, olhou em volta como a pedir desculpa e viu metade da plateia a dormir, um quarto a tossir e a comer rebuçados e pensou. Que concerto, menina, que concerto.

Sunday, March 05, 2006

Ah, ah, isso tem mesmo muita graça,disse Miguel rindo com satisfação. Talvez tenha, mas o que é certo é que a Margarida ficou a odiar-me, respondeu Isolda triste. Não te preocupes, está zangada hoje, bem disposta amanhã, não te martirizes, não te vitimizes, retorquiu o amigo. Bom, bom, já pareces a minha família a falar, vou mas é trabalhar porque tenho uma reunião logo à tarde, respondeu Isolda, dando por finda a conversa. Antes de me ir embora queria fazer-te uma proposta. Indecente, perguntou a amiga com voz maliciosa. Já sabes que não, porque a minha religião não me permite. Ora, ora, diz lá o que tens a dizer e despacha-te. Queres ir comigo à Noruega para o mês que vem? Noruega, mas que ideia, fazer o quê? O meu sobrinho vai dançar na Ópera de Oslo e eu prometi-lhe que o ia ver, então agrada-te? Pensando bem é uma boa ideia, para o mês que vem não é? Não digo nada a ninguém e vou. Tenho é que pedir uma semana de férias. Olha que até é uma boa ideia, nunca viajei contigo nem conheço o teu sobrinho, mas dança clássica não é o meu forte, concluiu Isolda. Isso não tem importância, o mais importante é sairmos daqui, este país está doente e nós não podemos ficar contaminados. Olha lembrei-me de uma coisa, disse Miguel com ar misterioso. E se convidássemos o Vagino para ir connosco? Isolda gritando atirou-lhe uma borracha à cara.

Saturday, March 04, 2006

Não chores filha, já sabes como ela é, disse-lhe Teresa fazendo-lhe uma festa na cabeça. Ó mãe mas foi uma vergonha para mim, ele é meu colega de trabalho, como é que eu o vou encarar amanhã? De uma forma muito simples, dizes que a tua tia anda em tratamento, partiu uma perna há pouco tempo e ainda está com stress. Margarida tinha os olhos marejados de água e tremia-lhe o beicinho quando falava. Ela às vezes não respeita ninguém. Não respeita nada nem ninguém, acrescentou a progenitora assertiva, ela é uma mulher centrada nela, só se vê a ela. Já reparaste que quando nos telefona só fala dela, nem sequer pergunta como estamos, ou então é para dizer mal de toda a gente, aquela minha irmã não gosta de ninguém. Não é verdade, eu sei que ela gosta de mim, respondeu Gui mimalha. Sim, mas mesmo isso é para competir comigo, mas tu gostas mais da mãe do que dela, não é filha? Margarida olhou para os olhos de boga da Teresa e hesitou, mas de imediato abraçou-a e disse, ó mãezinha claro que é de ti que eu gosto mais e agora vou levar imenso tempo a voltar a encontrar-me com ela.
Teresa abraçada à filha sorriu.

Friday, March 03, 2006

O filme é surpreendente, não parece nada com o que o Woody Allen habitualmente faz, disse Isolda com uma voz entusiasmada. Tens toda a razão tia, as mortes com aquela dose de premeditação são inesperadas, respondeu Margarida. Acho que ele agora está a fazer um filme em Barcelona, parece-me que não tem grande êxito nos Estados Unidos. Ó tia com aquelas broncas com a Mia Farrow. Vamos comer qualquer coisa? Queres ir aos cozidos a vapor?
Já sentadas no restaurante, Isolda observou a sua afilhada, tão bonita que ela era, tão eficiente como gestora de um moderno SPA em Lisboa, tão diferente da sua irmã. Ela sim , poderia ter sido sua filha. Tinham tanto em comum.
Tia, está ali um colega meu, um mestre de Tai-Chi, disse acenando para um homem grisalho, de porte atlético. Num segundo ele estava junto delas, olhando-as com um ar sereno. Esta é aminha tia e madrinha, Isolda Freire. Ele estendeu a mão e disse sorrindo, Jorge Vagino, muito prazer. Isolda num primeiro momento engoliu em seco, mas não aguentando mais, desatou a rir convulsivamente. A cena era hilariante. O homem com a mão estendida, a sobrinha estupefacta e a tia a rir sem conseguir parar, como naquela cena do Leopardo, quando a Cláudia Cardinale, no papel de Angélica, noiva de Tancredi, se ri sem parar no fim do jantar, em casa do principe de Salina após ouvir uma anedota sobre freiras.
Tia, sussurrou Margarida, estás a ser inconveniente. Isolda tomou consciência do que estava a acontecer, muita gente do restaurante olhava para ela. Levantou-se rapidamente e disse, desculpem vou ao toilette.

Wednesday, March 01, 2006

A mulher sentada no banco do barco que atravessa o Tejo, com os quatro filhos ainda crianças. Olha para a outra margem, mas não olha, as crianças puxam-lhe pelos braços e chamam por ela e a mulher não olha nem diz nada. Isolda reparou nessa mulher ainda nova e sentiu alguma ligação com ela, o olhar que não olha, os ouvidos que não escutam os gritos dos filhos. Mãe, ó mãe, olha para mim. Deixem-me por favor disse com um ar displiscente. Ela ama-os, certamente que os ama, mas não está ali, está desatenta ao óbvio. O barco parou e aquele olhar cavado volta à realidade. Dá a mão à tua irmã, não se afastem de mim. Ó mãe eu queria um gelado. Isolda lembra-se de dizer à mãe, ó mãe, mãe, eu queria um sorvete. Como as palavras mudam, e a minha mãe, hoje não há sorvetes. Só aos domingos. Mãe vamos fazer de conta que hoje é domingo.
O sol bate em cheio na Praça do Comércio, as pessoas passam a correr e no meio delas a mulher com os quatro filhos. Os filhos puxam-na para o quiosque dos gelados e ela vai, com o ar ausente compra quatro cornetos de morango. Cones de baunilha com duas bolas de nata e morango. Isolda atravessa a rua e perde de vista a mulher. Se eu encontrasse agora alguém que me dissesse, quer ir comer um gelado comigo? Atravessa o arco de triunfo e caminha apressada para a Praça da Figueira, a Margarida já deve estar à espera de mim,pensou. Tira o telemóvel da mala e marca o número. Gui, vou apanhar um táxi no Rossio, querida, não demoro a chegar, hoje tive uma reunião no exterior, vai comprando os bilhetes. Sente um suspiro enfastiado, também tu Margarida, a afilhada querida, também tu.